fevereiro 18, 2004

Noites de sortilégio – III

(continuação)

Entretanto, os meus pais mudaram de casa, os acidentes da vida levaram-me para outras terras e outros convívios e, durante longos tempos, não voltei a conversar com Ti Duarte e Ti Gracinda.

Foi no ano em que o meu filho nasceu, nas férias de Verão passadas em casa de meus pais, que um mero acaso me levou a visitar o velho das histórias de fadas, bruxas e feitiços das noites de sortilégio da minha juventude.

Era então eu a mãe mais babada do mundo, derramada de felicidade e orgulhosa das menores gracinhas do meu rebento, e tão cheia de esmerados desvelos e cuidados como só uma mãe recente e ainda com pouca experiência o pode ser. Por isso, na tarde soalheira em que visitei Ti Duarte, carregava o meu filho num braço e, no outro, um saco preparado para qualquer urgência e necessidade: fraldas descartáveis, algodão e óleo de limpeza, um biberão com água fervida e alguns utensílios e ingredientes necessários para o lanche do bebé.

Mal estacionei o carro, reconheci Ti Gracinda. Vinha do poço, pelo carreiro por mim tantas vezes percorrido na meninice. Mais curvada, mais baixa, usava o eterno lenço escuro na cabeça e trazia agora, apesar do calor, um xaile de lã traçado no peito. Entre as mãos, apertada pelo bojo, carregava com cuidado uma bilha pequena de barro.

«Fui buscar uma infusinha de água ao poço. A da torneira não me dá satisfação», confidenciou, de olhos húmidos, depois do primeiro espanto de me voltar a ver.

Quanto a Ti Duarte, adiantava ela, também ia «menos mal para a idade. Um ouvido e uns olhos que parecem de moço, benza-o Deus. De pernas é que já anda um pouco peado.»

A voz de Ti Gracinda tremia, comovida: «A alegria que ele não vai ter, menina, de a voltar a ver.»

A cozinha era a mesma. Talvez um pouco mais vazia, mais escura, apesar do candeeiro eléctrico - chapeuzinho metálico na ponta de um fio branco que escorria do tecto - que substituíra o antigo “petromax”. Apesar da televisão moderna, a cores, e que eu só descobri, numa prateleira pequena suspensa da parede, já a conversa e o desenrolar das novidades ia alto.

«Pois é, menina, já casada e com um filho nos braços!...» Uma névoa de saudade sombreava os olhos ainda vivos do velho: «Parece que foi ontem que a menina cá vinha comprar leite mais o seu mano e a sua mãe...»

E eu partilhei a saudade: «As histórias que então me contava!... Parecia que o mundo se desfazia em bruxas e bruxarias. E o Ti Duarte sempre a jurar-me que aquilo era tudo verdade, verdadinha. E olhe que eu dizia que não acreditava mas, lá no fundo, ficava cheia de medo. Apesar de me estar sempre a repetir que bruxas eram coisas dos tempos antigos, que tinham desaparecido, quando eu abalava daqui da sua casa ia todo o caminho enroscada no braço da minha mãe e nem levantava os olhos para os lados, não fosse avistar ainda a sombra de alguma bruxa por aí perdida. O Ti Duarte enchia-me de medo com as patranhas que me pregava.»

«Ora menina, o que eu gostava era de a ouvir, a si e ao seu mano. Mas que eu fui criado nuns tempos muito maus, que passei muita fome e necessidades, lá isso é verdade. Por isso não era de admirar que visse bruxas em todas as curvas do caminho, fraquinho e moídinho de trabalho como andava. Mas a menina Anita já cresceu com outras farturas e outros cuidados. Por isso é que eu lhe dizia que, no seu tempo, já não havia dessas coisas. E agora, então, tem aí um menino lindo e criado com tanto mimo e fartura que dá gosto ver.»

Escurecera sem darmos por isso, animados pela conversa. Pela porta larga da cozinha, aberta de par em par, entrava a sombra morna do fim de tarde e o canto, ainda tímido e abafado, dos primeiros ralos e grilos a acordarem a noite.

Ti Gracinda carregou no interruptor e, do chapeuzinho redondo do candeeiro, derramou-se uma cascata de luz que inundou a cozinha.

E foi então, nesse preciso momento, que o rosto do velho contador de histórias se fechou - nuvem escura que ensombra o sol - absorto, silencioso, afundado num qualquer pensamento íntimo ou, quem sabe, nalguma longínqua recordação.

Quando levantou a cabeça, fixou em mim uns olhos velados de tristeza e disse, devagar, pausando as palavras:

«Sabe, menina, qual era, afinal, a grande mentira que, nesse tempo, eu lhe contava? Era que as bruxas eram coisas do passado. Infelizmente, ainda as há e das negras.»

Fiquei-me a olhar para ele, a tentar entender-lhe o pensamento.

«Pois é, menina, eu sei ler pouco. Mas ouço, aprendo... Já vivi muito e sinto as coisas dentro de mim. E agora, com o rádio e a televisão, a gente fica a saber coisas que se passam por esse mundo fora. Já não conhece só o nosso canto. Olhe, as vezes eu até me arrepio. Quando vejo essas criancinhas em pele e osso, nesses países mirrados pela fome, todas mais mortas que vivas, agarradas à teta ressequida das mães, que mais parecem esqueletos em pé, com moscas a passearem-lhe na cara... E quando sei que se deitam para as estrumeiras carregamentos inteiros de frutas, que se mandam queimar searas imensas só por causa dos preços dos produtos nos mercados, da ganância de uns quantos para terem lucros muito grandes... E se compram tantas armas e se fazem tantas guerras quando, com o preço de uma dessas bombas de matar gente, se alimentava uma vila inteira... Diga lá, menina, acha que as bruxas já acabaram? Continuam a existir, não vivem é junto aos poços nem nas encruzilhadas. Vivem na cabeça e no coração dos homens.»

Ti Duarte enxugou com as costas da mão os olhos húmidos. «O que sobra e se desperdiça num lado é o que faz falta no outro. E a culpa é dos homens e das suas políticas. Por mais desculpas e falsas explicações que inventem, a verdade é que a Terra é mãe e tem o suficiente para todos os seus filhos. Mas a Terra é como uma grande casa que tem de ser bem governada. E os homens governam mal a Terra, algumas vezes por ignorância mas a maior parte porque não se importam uns com os outros. Por egoísmo. Por quererem tudo para eles. Pelo feitiço da ganância que lhes tapa os ouvidos, fecha os olhos e cerra os corações.»

Os olhos do velho tinham agora o brilho dos iluminados:

«Acredite, menina, as bruxas são o egoísmo que vive no coração dos homens. E está nas mãos dos homens acabar de vez com elas e fazer da Terra um local sem feitiços onde dê gosto viver. Para todos, não só para uns quantos.»

Despedimo-nos. De pé, no umbral da porta da cozinha, Ti Duarte ficou longamente a acenar com a mão emagrecida. O canto dos grilos e ralos era agora uma orquestra grande, poderosa e afinada. Apertei o meu filho nos braços e as palavras do velho cresceram na noite calma, sob o negro céu flamejante de estrelas: «Está nas mãos dos homens fazer da Terra um sítio bonito para se viver. Para todos os seus filhos!»

F I M

anamar - 1989

Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.

Publicado por vmar em fevereiro 18, 2004 06:12 PM
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